Verdadeiro
Não consigo sair da cadeira.
As outras dependências da casa se agigantam à minha frente, frias, vazias e escuras. Enrolo-me em uma velha coberta azul e observo os ultimos raios de sol. Acho que adormeço, porque a próxima coisa de que me lembro é que já está de manhã e lá esta ela está fazendo barulho no fogão. Jessica prepara ovos e torradas para mim, e fica lá sentada até eu terminar de comer. Não conversamos muito.
Depois do café da manhã, Jessica lava os pratos e vai embora, mas retorna na hora do jantar para me fazer comer novamente. Não sei se está apenas sendo uma boa amiga ou se está sendo paga por alguem para fazer isso, só sei que ela aparece duas vezes por dia. Ela cozinha e eu como.
Tento decidir qual será meu próximo passo. Agora não há mais nenhum empecilho para que eu siga com a minha vida. Mas parece que ainda estou esperando alguma coisa.
Às vezes, o telefone toca e toca e toca, mas não atendo. Ninguém aparece além de Jessica e sua incrivel disposição pra me aguentar. Após meses de confinamento solitário, ela parece uma multidão.
Voltei a conviver. Ainda há momentos em que eu agarro as costas de uma cadeira e me seguro até que os flashbacks tenham passado. Acordo de pesadelos com bestantes e crianças perdidas. Mas seus braços estão lá para me consolar. E por fim, sua boca.
Que aquilo de que necessito para sobreviver não é o fogo, aceso com raiva e ódio. Eu mesma tenho fogo suficiente. Necessito é do dente-de-leão na primavera. Do amarelo vívido que significa renascimento em vez de destruição. Da promessa de que a vida pode prosseguir, independentemente do quão insuportáveis foram as nossas perdas. Que ela pode voltar a ser boa.
Então, depois, quando eu sussurro:
– Você me ama. Verdadeiro ou falso?
Ele me diz:
– Verdadeiro.