Zica
Quando eu soube que ela havia falecido, partido desse mundo, deixado as pessoas que amava, me deixado, nem soube o que pensar, minha cabeça não funcionava direito, meu pensamentos foram todos vertidos para longe. As ruas são todas iguais, mas minhas mãos e pés sabem para onde ir, mesmo que minha mente não se preocupe em orientá-los. A minha casa. Passo pela porta da frente e subo as escadas, ainda com aquela sensação abafada em meus ouvidos, como se eu estivesse flutuando longe do mundo.
Passei os últimos dias em algum lugar entre o sono e a vigília, não totalmente capaz de permanecer em qualquer um dos extremos. Ligo a máquina de cortar cabelo na tomada perto do espelho. A lâmina já está no lugar certo, de modo que tudo o que tenho que fazer é passar a máquina em meu cabelo, puxando as orelhas para baixo para protegê-las da lâmina, virando a cabeça para checar a parte de trás do meu pescoço e ver se esqueci algum lugar. O cabelo cortado cai sobre meus pés e ombros, pinicando a pele nua. Passo a mão sobre a minha cabeça para ter certeza de que está nivelada, mas não preciso verificar, não de verdade.
Existem outros tipos de pessoas neste mundo. Não como ela, que depois de sofrimento e traição, ainda pode encontrar amor suficiente para dar sua vida, lutou até que não pudesse mais suportar. Aparecer na minha frente é outra escolha, mais brilhante e mais forte do que as que eu me dei.
As pessoas falam sobre a dor do luto, mas eu não sei o que elas querem dizer. Para mim, o luto é um entorpecimento devastador, cada sentimento adormecido