Survive...

Não existe mais ninguem batendo à minha porta, só o velho som do nada invadindo meus ouvidos, aquele zumbido seco. Vez ou outra até escuto passos lá fora, às vezes o telefone toca, toca e toca, mas eu não o atendo. Eu sou incapaz de me mover da cadeira. O resto da casa parece frio, vazio e escuro. Puxo um xale velho sobre meu corpo e encontro o sono. 
Procuro sair da cadeira e encontro um sofá, velho, porém convidativo. Eu caio no sono no sofá da formal sala de estar. Um pesadelo terrível segue, onde eu estou deitada no fundo de uma vala profunda, e cada pessoa morta que eu conheço pelo nome se aproxima e joga uma pá cheia de cinzas em mim. É um sonho muito longo, considerando a lista de pessoas, e quanto mais eu estou enterrada, é mais difícil de respirar. Eu tento gritar, pedindo-lhes para parar, mas as cinzas enchem minha boca e nariz e eu não posso fazer nenhum som. A pá ainda roça adiante e adiante e adiante... Eu acordo com um sobressalto. A pálida luz da manhã vem em torno da cortina branca.

E eu nem sei como eu sobrevivi, eu nem sei mesmo se estou viva. Nada em que se prender, a não ser nas lembranças e figuras, elas me lembram da batalha que enfrentei, e ainda enfrento. E se eu dia eu me convencer a ter filhos, como vou explicar toda essa dor para eles, como vou explicar pelo que eu passei, sem que isso os apavore até a morte.

Eu posso fazê-los compreender de uma maneira que irá torná-los mais corajosos. Mas um dia eu vou ter que explicar sobre os meus pesadelos. Por que eles vieram. Por que eles não vão nunca realmente embora. Eu vou dizer-lhes como eu sobrevivi a isso. Eu vou dizer-lhes que nas manhãs ruins, parece impossível sentir prazer em qualquer coisa, porque eu tenho medo que isso possa ser tirado de mim. É quando eu faço uma lista na minha cabeça de cada ato de bondade que eu vi alguém fazer. É como um jogo. Repetitivo. Até um pouco entediante depois de mais de vinte anos.
Mas há jogos muito piores para jogar.

E eu nem mesmo tenho como explicar sobre o que é tudo isso.

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