Chegadas e partidas, que me partem o coração
Eu sou um aeroporto.
Na verdade, todos nós. Que outro lugar, senão um aeroporto, condensa
sob o mesmo teto a alegria do encontro e a tristeza da despedida? Vejo
pedaços de mim acima das nuvens, em logradouros distantes, em cidades
inóspitas. Recebo, também, de todo lugar, pedaços do mundo que, como
ímãs, aplicam-se sobre a minha pele e lá ficam para a posteridade,
exibidos por onde passo.
Alguns têm a pista embrenhada entre matas, encoberta por nuvens de
chuva, radares desligados ou intencionalmente sabotados. Tem gente que
tem medo de avião.
Por medo das partidas, tem gente que não deixa ninguém chegar. São
aeroportos fechados. No entanto, a gente só percebe o calor do abraço
quando sente a dor de respirar o ar frio da solidão. Você brada aos céus
toda sorte de impropérios, mas não percebe que vôo nenhum te encontra
no radar.
Eu sou um aeroporto. Chegadas e partidas são a única certeza na minha
vida. Meus olhos estão virados pro futuro, focados na estrada que se
prostra à minha frente. Encontro em mim, com igual facilidade, motivos
para persistência ou para desistência. E continuar pra quê? Continuo com
a força do que levo pra vida. O saldo positivo disso tudo é a
quantidade de aviões que acolho em meus hangares. Pedaços de histórias
que conto pra mim mesma todo dia, enquanto ergo um tímido sorriso quase
que instantâneo de realização.
E você, aeroporto em greve, tá esperando o quê, olhando pra cima?
(Avião não pousa em aeroporto fechado)