Amor, só que não
Sempre existe uma, duas ou dez pessoas no mundo que
poderíamos ter amado. Gente pra quem olhamos de longe, depois de um
tempo, e vemos que, não fosse algum porém do cotidiano, um desencontro
qualquer (ou uma deusa qualquer), poderíamos ter conhecido melhor,
entrelaçado as pernas, colado o nariz e brigado no carro. De longe, com
uma melancolia boa percebemos que, talvez, esse poderia ter sido um
romance bem escrito – mesmo que fosse por apenas algumas páginas da
vida. Você não quis, a pessoa não quis ou simplesmente não deu tempo...
Mas algo ali mostra que, puxa, poderíamos ter mudado o rumo de nossas
histórias, porque, sim, eu poderia ter te amado. Não arranca pedaço. Não
remói. Apenas mostra que a vida é a gente quem faz e, não, desta vez
não fizemos. Dá vontade de dizer: “Ei, eu poderia ter te amado!”. É até
doce.
Mas, às vezes, essa mesma visão dói. Aquela história que poderia ter sido nossa é cortante, sangra a frustração e jorra arrependimento. Nada é mais dilacerante do que o arrependimento. Aquela vontade de voltar no tempo, aquele pesadelo constante de não conseguir explicar por que (por que, meu deus?!) não fiz diferente. E diante de nós, claro, saltita feliz um dos seres que poderíamos ter amado. Alguém com quem poderíamos ter dividido o cão, a barraca e os filhos. Sim, porque quando se trata de arrependimento nossa criatividade vai longe. É o mundo esfregando em nossa cara uma certa incompetência, ou o maldito azar que insiste em nos rodear. É azedo, custa a passar.
Martela por
dias entre os mais variados palavrões: “Caralho, eu poderia ter te
amado!”.