Meu ornitorrinco
A pedido da minha alma. De um bichinho de unhas grandes que vaga por
minhas entranhas de uma forma que, por mais que eu tente, não consigo
manter-me indiferente. Ele quer voltar a sair. Sente saudade dos pares
de olhos que encontrou durante anos, dentro de quartos tão ou mais
escuros do que esse que me acolhe. Quer ir pra rua, de novo, o
ornitorrinco.
A pedido das palavras que, presas entre os dentes e a língua, são
privadas da reverberação pelo ar. Atendendo ao clamor dos pensamentos
que, cansados de ricochetear no pequeno vestíbulo ao qual mantenho-os
confinados, ora por medo, ora por preguiça, ou então sem motivo
aparente, aqui escrevo.
Obedecendo a ordem que meu coração me deu de voltar a escrever sem
métrica, tempo ou medida, sem melodia, sem ritmo nem rima, aqui e agora,
eu volto a borrifar ao vento os sentimentos que não consigo cantar.
Atendendo a pedidos, cá estou. Volte sempre.