Queria escrever menos
E viver um pouco mais. A literatura de meus dias perdeu o caráter de
microconto. Virou romance, talvez drama que não
mais se capitula em poucos parágrafos. Muitas vezes abandonei em branco o
texto, pois olhava, míope, para dentro de mim e nada via senão o
nebuloso vulto da ulceração que ainda gritava em vermelho. Precisava
encontrar um caminho para a superfície, mas no fundo daquele poço
encontrei um par de lentes. Não me serviram muito bem.
O romance pode
até nos subtrair alguns anos da vida, mas quando é que alguém, por um
segundo que fosse, cogitou – a sério – viver sem ele? A gente passa a
prometer menos, mentir menos, e chega até a achar que, dessa vez,
erraremos menos, por julgarmos saber onde escondem-se todas as bombas
desse campo minado. Nem preciso lembrar que a única certeza no romance é
a de se estar eternamente em apuros, saracoteando as pernas para não se
deixar afundar totalmente no obscuro e indecifrável oceano que é a vida
daquela pessoa com a qual estamos de mãos dadas.
Ninguém nos obriga a sentir as mesmas dores de novo, mas a gente se
quebra em mil pedaços para sentir o prazer na cura. A gente acha que
pode viver sem, mas as palavras soluçadas no fim de uma noite ébria
evidenciam o que, para todos ao nosso redor, já era óbvio: estamos
fodidos.