À beira do precipício
Eu já caí, de tanto olhar pro céu. O
que me protegeu de espalhar minha cabeça pelo meio-fio da calçada foi o
fato de eu sempre andar no meio da rua. Os carros que vêm na minha
direção não passam de velozes e barulhentos fantasmas que meus inimigos
vivem inventando para me testar. Eles conhecem meus medos melhor do que
eu.
Eu já me perdi, de tanto olhar pros lados. O que me
fez chegar onde estou foi a companhia desejada das pessoas que me são
mais importantes, jamais permitindo que eu entalhasse na areia pegadas
solitárias. Encontrei caminho e refúgio nas esquinas que a multidão
esqueceu de ver, enquanto tentava trazer o horizonte pra mais perto. O
tempo passa sozinho, e não há nada que possamos fazer para assumir seu
controle.
Eu já petrifiquei minhas pernas, de tanto
viver o passado. Minhas amarras foram soltas pelo súbito empurrão que
você me deu. Me dóem os pés, dor essa que ignoro toda vez que minhas
solas encontram novo chão. Os fantasmas, de repente, somem, e a estrada
dos meus dias se desenrola em minha frente como um tapete vermelho.
Basta que haja equilíbrio. E esse equilíbrio não se dá de olhos
fechados, muito menos se olhando por onde anda.
Enxergo
o auge da minha vida como o equilíbrio. Mesmo eu estando sempre over
the edge. Qualquer passo descuidado trará o chão para um brusco encontro
com a minha face distraída. Não sei o meu próximo passo, mas vivo meus
dias e noites em função de fazer com que os meus pés toquem sempre o
caminho que eu construí.
A gente faz o nosso caminho, e é normal que ele seja estreito e sinuoso. Ninguém consegue andar em linha reta por muito tempo.