Meu próprio sol

Cada respiração queimava - os canais de passagem estavam parecendo em carne viva, como se eu os tivesse esfregado com lã de aço. Mas eu estava respirando. E eu estava congelando. Um milhão de pequenos pedaços de gelo, afiados, estavam passando pelo meu rosto e pelos meus braços, tornando o frio ainda pior. Mas eu sempre fui gelada mesmo, no calor meu corpo ficava incrivelmente frio, e no frio também... Esse frio era diferente, era interno e não externo.

Mas o meu corpo só queria ficar aqui deitada, pra nunca mais levantar. Ao invés de me mover, eu pensei um pouco em Julieta.
Eu imaginei o que ela teria feito se Romeu tivesse abandonado ela, não porque ele foi banido, mas porque ele havia perdido o interesse. Eu pensei em como Julieta teria se sentido. Ela não voltaria para a sua vida antiga, não mesmo. Ela não teria nem dado a volta por cima, disso eu tinha certeza. Mesmo se ela vivesse até estar velha e cinza, todas as vezes que ela fechasse os olhos, seria os olhos de Romeu que ela veria por trás das suas pálpebras. Ela teria aceitado isso, eventualmente.


Abri os olhos devagar, não que eu estivesse dormindo, só para poder registrar aquele momento com mais propriedade, não posso deixar passar nada quando se tratava dele. O corpo dele tão quente, tão bom ficar ali do seu lado, absorvendo todo aquele calor, de modo que quando minhas mãos geladas, tocaram seu braço, ele deu um pulinho, me perguntou o que havia de errado comigo, porque não podia ser normal alguém tão gelada, rimos juntos, deve ser bom nunca sentir frio pensei.  Era algo dele, ser assim quente, ele era o seu próprio sol, o meu próprio sol.
Meu sol. Meu.

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